Por André Passos Cordeiro

O Brasil precisa enfrentar com responsabilidade o desafio do equilíbrio fiscal. Contas públicas sustentáveis são essenciais para reduzir incertezas, melhorar as condições de financiamento da economia e criar um ambiente mais favorável ao investimento. Mas há uma questão igualmente importante nesse debate: não basta discutir quanto o Estado gasta. É preciso discutir como e onde o Brasil investe.

Essa discussão ganha outra dimensão quando olhamos para o tamanho da indústria brasileira e para setores que sustentam parte relevante da atividade econômica do país.

A mineração registrou faturamento de R$ 298,8 bilhões em 2025 e emprega diretamente cerca de 229 mil pessoas. A indústria brasileira do aço registrou faturamento de US$ 29,4 bilhões em 2025. Já a indústria química alcançou aproximadamente US$ 167,8 bilhões em faturamento, o equivalente a cerca de R$ 900 bilhões, e sua cadeia responde por aproximadamente 2 milhões de empregos diretos e indiretos.


Os números mostram a dimensão de uma das maiores indústrias do Brasil. Mais do que seu tamanho, porém, importa compreender sua transversalidade. A química está no início ou no meio de praticamente todas as grandes cadeias produtivas: agricultura, saúde, construção civil, indústria automotiva, mineração, saneamento, alimentos, energia, tecnologia, higiene e inúmeros outros setores.

Por isso, quando a indústria química perde competitividade, o impacto não fica restrito às fábricas químicas. Ele se espalha pela economia brasileira.

Equilíbrio fiscal, portanto, não pode significar perda da capacidade de construir as bases para o crescimento. Um país que reduz investimentos capazes de elevar sua produtividade pode melhorar indicadores no curto prazo, mas comprometer sua competitividade no longo prazo.

Essa é uma das discussões centrais apresentadas pela Agenda da Indústria Química 2027–2035, elaborada pela Abiquim. A competitividade brasileira dependerá de escolhas capazes de combinar responsabilidade fiscal, eficiência do gasto público e prioridade para investimentos estruturantes.


Infraestrutura, logística, energia e segurança de suprimento não são questões periféricas para a indústria. São componentes diretos do custo de produzir no Brasil.

Uma indústria química competitiva depende de matérias-primas e energia em condições adequadas, mas também precisa transportar insumos e produtos com eficiência, acessar portos competitivos, contar com infraestrutura confiável e ter previsibilidade para tomar decisões de investimento que frequentemente envolvem bilhões de reais e horizontes de décadas.

Quando essas condições não existem, o custo aparece na fábrica.

A logística mais cara reduz competitividade. A infraestrutura insuficiente aumenta riscos. A falta de previsibilidade energética dificulta novos investimentos. E cada uma dessas ineficiências diminui a capacidade do produto brasileiro de competir tanto no mercado interno quanto no exterior.

Por isso, a agenda da indústria química propõe avançar na implantação de corredores multimodais, ampliar a previsibilidade logística e promover maior integração entre planejamento energético, infraestrutura e política industrial.

Não se trata de defender aumento indiscriminado do gasto público. Ao contrário. Trata-se de reconhecer que gastar melhor também significa priorizar aquilo que aumenta a capacidade produtiva do país.


O Brasil precisa ser capaz de distinguir despesa de investimento estratégico.

Investimentos que reduzem gargalos logísticos, ampliam a oferta competitiva de energia, fortalecem a infraestrutura e melhoram o ambiente para a produção têm efeito multiplicador sobre a economia. Aumentam a produtividade, estimulam investimentos privados, fortalecem cadeias produtivas e ampliam, no longo prazo, a própria capacidade de gerar renda e arrecadação.


A indústria química, por sua dimensão e transversalidade, é um exemplo claro desse efeito multiplicador. Fortalecer sua competitividade significa fortalecer inúmeras outras cadeias produtivas brasileiras e recuperar a capacidade industrial.

O desafio para os próximos anos, portanto, não deve ser escolher entre responsabilidade fiscal e desenvolvimento.

Precisamos dos dois.

Responsabilidade fiscal é indispensável para construir confiança e estabilidade. Mas crescimento sustentável também exige investimento, produtividade e uma estratégia de longo prazo para infraestrutura e indústria.

O verdadeiro equilíbrio está em construir um Estado mais eficiente, capaz de controlar despesas, estabelecer prioridades e preservar os investimentos que aumentam a capacidade do Brasil de produzir.


Gastar melhor é também criar as condições para o Brasil produzir mais, investir mais e crescer de forma sustentável.

Artigo publicado no Portal Poder 360. Acompanhe aqui.