
A redução de 57% nos índices de sinistros no transporte de produtos químicos por 10 mil viagens entre 2006 e 2024 revela uma trajetória de amadurecimento da gestão de segurança no setor. Nos primeiros 15 anos da série histórica, a queda chegou a 75%, e, desde então, o indicador se mantém em torno de um sinistro por 10 mil viagens. Esses resultados refletem a evolução dos sistemas de gestão, da qualificação dos profissionais, dos processos e das tecnologias empregadas na operação — um movimento no qual o SASSMAQ® ocupa papel importante. Criado pela Abiquim em 2002, o programa se consolidou como um mecanismo de avaliação, melhoria contínua e qualificação das empresas que atuam no transporte de produtos químicos.
É nesse contexto que a experiência de Sérgio Sukadolnick ganha especial relevância. Diretor de Relações Institucionais do Grupo Cesari Logística, que completa 75 anos de trajetória, ele atua há mais de cinco décadas no transporte de produtos perigosos. Atualmente, é 2º vice-presidente da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos (ABTLP) e participa da estrutura de normalização da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), entre outras atividades ligadas ao setor. Ao longo dessa trajetória, acompanhou de perto a evolução das normas, dos sistemas de gestão e das práticas de prevenção. Nesta entrevista, Sérgio fala sobre o papel do SASSMAQ® nessa transformação, a responsabilidade de quem contrata o transporte e os caminhos para tornar a logística química mais segura, produtiva e competitiva nas próximas décadas.
Abiquim Informa: Você começou a atuar no transporte de produtos perigosos em 1974. O que mudou no setor ao longo dessas cinco décadas?
Sergio Sukadolnick: Comecei profissionalmente na área administrativa e, em 1974, fui ajudar meu irmão, que trabalhava com transporte de combustíveis. Em 1976, fundamos a Chemical, Transporte de Produtos Perigosos, e foi quando comecei efetivamente a aprender sobre o transporte de produtos químicos. Tivemos que entender compatibilidade de tanques, custos, operação e, principalmente, buscar conhecimento. Fomos conversar com profissionais de empresas como Bayer, Carbocloro, Dow e Solvay. Percebi desde o início que, para trabalhar com produtos perigosos, era preciso conhecimento especializado e uma aproximação muito grande com a indústria.
Ao longo desses anos, acompanhei a evolução da legislação e das práticas de segurança. O setor foi aprendendo, inclusive a partir de acidentes, que não dava para trabalhar apenas com experiência prática. Era necessário criar procedimentos, treinar pessoas, fiscalizar e estabelecer padrões.
AI: O SASSMAQ® foi uma dessas mudanças importantes. Como você acompanhou a evolução do programa e o impacto que ele trouxe para o setor?
SS: O SASSMAQ® começou na Abiquim em 2001 e teve um avanço muito importante a partir de 2005, quando as empresas signatárias do Programa Atuação Responsável® passaram a contratar transportadores auditados e certificados pelo programa. Naquele momento, o número de empresas participantes cresceu muito. Em 2005, eram cerca de uma dúzia de empresas e esse número saltou para mais de 300.
Começamos a perceber também uma redução nos índices de acidentes e sinistros relacionados ao transporte de produtos perigosos. Isso mostra que, quando você estabelece conhecimento, treinamento, procedimentos e critérios de qualificação, consegue produzir resultados concretos.
O mais importante é que o mercado passou a entender o SASSMAQ® como uma boa prática. Mesmo quando deixou de existir a obrigatoriedade que havia entre 2005 e 2011, muitas empresas continuaram adotando o programa porque entenderam seu valor. Isso mostra que ele deixou de ser apenas uma exigência e passou a fazer parte da cultura de segurança do setor.
AI: Se a certificação se consolidou como referência de qualificação, como o contratante deve utilizá-la no momento de escolher um transportador?
SS: A certificação é um ponto de partida para a qualificação, não o fim dela. O contratante precisa ler o relatório da auditoria e entender qual é o perfil daquela empresa. O programa contempla diferentes situações e tipos de operação. Uma empresa pode atingir os requisitos necessários para obter a certificação, mas isso não significa necessariamente que ela tenha o mesmo nível de atendimento de outra que esteja em um patamar muito mais elevado.
É preciso verificar se o transportador tem experiência com aquele produto, como faz a manutenção dos equipamentos, como estrutura a emergência, como programa as rotas, se os colaboradores sabem interpretar as informações de segurança e se os procedimentos são compatíveis com a operação.
Isso é ainda mais importante quando falamos de produtos que exigem cuidados específicos. Mesmo que uma empresa tenha a certificação, o contratante precisa avaliar se ela realmente atende ao padrão necessário para aquela operação.
Por isso, não se pode colocar todas as empresas na mesma cesta. Uma transportadora que mantém estrutura adequada, licenças, garagem, manutenção e procedimentos de segurança tem custos que fazem parte daquilo que entrega. O responsável pela contratação precisa primeiro analisar o valor que aquele fornecedor agrega à operação e, depois, olhar o custo. Não estou falando em deixar a concorrência de lado. A concorrência tem que existir. Mas é preciso colocar os fornecedores em um nível adequado de comparação.
O relatório do SASSMAQ® ajuda justamente a enxergar essas diferenças. Quando você escolhe apenas pelo preço, pode acabar comparando empresas que oferecem condições completamente diferentes de segurança. Segurança tem valor, e a escolha do fornecedor também é uma decisão de responsabilidade.
AI: A 4ª Edição do SASSMAQ® ampliou o olhar para diferentes fatores da operação, inclusive saúde e capacitação dos motoristas. Como fazer com que essa cultura alcance toda a cadeia?
SS: É preciso entender que segurança não é responsabilidade de uma única pessoa. O motorista tem um papel fundamental, mas quem contrata, programa e acompanha a operação também precisa estar preparado para tomar decisões adequadas.
Um exemplo é a própria saúde do motorista. Hoje falamos em exames, treinamento, jornada de trabalho, descanso e até questões como apneia e outras condições que podem interferir na condução. O SASSMAQ® 4ª Edição avançou nesses requisitos dentro de uma revisão técnica que também incorporou aspectos relacionados às práticas ESG, à segurança de processos e à proteção empresarial. Com isso, ampliou o escopo das avaliações e fortaleceu ainda mais os padrões de segurança, confiabilidade e eficiência operacional. É um olhar para diferentes fatores que podem contribuir para evitar um sinistro.
Na Cesari, procuramos aplicar essa lógica a todos os motoristas, sejam próprios ou agregados. Eles passam pelos mesmos treinamentos e seguem os mesmos requisitos. Também temos mecanismos de acompanhamento, como o bafômetro na entrada e na saída dos veículos e regras de comportamento estabelecidas no Manual do Motorista.
Mas isso precisa ir além da empresa. É muito enriquecedor conversar com os motoristas, ouvir o que eles encontram na estrada, os problemas que enfrentam nos clientes e as dificuldades da operação. O motorista vive uma realidade que muitas vezes quem está no escritório não conhece. Até o programador deveria fazer uma viagem com o motorista para entender o que realmente acontece durante o percurso.
AI: Olhando para os próximos 10 ou 20 anos, o que o Brasil precisa fazer para tornar o transporte de produtos perigosos mais seguro, eficiente e competitivo?
SS: Temos um fator bastante importante relacionado ao motorista, mas acho que o principal é desenvolver os outros modais para sermos mais competitivos e termos um custo menor também. O Brasil ainda depende muito do transporte rodoviário e precisa avançar na integração entre rodovias, ferrovias, hidrovias e cabotagem.
Um dos custos mais relevantes de toda a cadeia da indústria química é a logística. E, no Brasil, essa questão é agravada pela baixa produtividade em algumas etapas da operação, especialmente nos processos de carga e descarga. O tempo que um veículo fica parado representa um custo que nem sempre é percebido pela indústria.
Se você consegue melhorar a produtividade, o custo fixo por viagem diminui. E isso precisa entrar na discussão com o fornecedor e com o operador logístico. Não adianta falar apenas em preço se não forem consideradas as condições de produtividade oferecidas pela operação.
Então, quando penso nos próximos 10 ou 20 anos, vejo três pontos importantes: produtividade, desenvolvimento de outros modais e qualificação das pessoas. Precisamos melhorar a infraestrutura, integrar os diferentes meios de transporte e continuar investindo em conhecimento e tecnologia.
A operação vai mudar, mas a necessidade de conhecimento continuará. Depois de tantos anos, uma coisa continua valendo: é preciso continuar aprendendo e ter uma visão ampla do mercado. A tecnologia é uma ferramenta, mas são as pessoas que precisam saber utilizá-la.