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Abiquim prepara indústria química para os desafios da agenda climática brasileira

Terca-Feira, 21 de Julho de 2026

A regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), a implementação do Plano Clima e o avanço da Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial (ENDI) colocam a indústria brasileira diante de uma das mais importantes transformações regulatórias das últimas décadas. Com o objetivo de preparar suas empresas associadas para esse novo cenário e fortalecer o diálogo entre a indústria e o poder público, a Abiquim promoveu, no dia 20 de julho, no Auditório do Condomínio Millennium, em São Paulo, o workshop "Plano Clima e Mercado de Carbono: Implicações para a Indústria Química no Brasil". O encontro reuniu cerca de 65 participantes, entre representantes de empresas associadas, especialistas e integrantes da administração pública, para discutir os principais instrumentos que orientarão a transição para uma economia de baixo carbono.


Competitividade e diálogo para construir a agenda climática

Na abertura do encontro, o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro, destacou que a agenda climática deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se consolidar como um tema estratégico para a competitividade da indústria brasileira. Segundo ele, a construção de um ambiente regulatório equilibrado, aliada à adoção de políticas públicas capazes de estimular investimentos, inovação e segurança jurídica, será determinante para que o País aproveite suas vantagens competitivas e fortaleça sua posição no cenário internacional.


André Passos Cordeiro: “Agenda climática exige diálogo permanente entre indústria e governo.”
Crédito: Abiquim/Divulgação

 

A partir desse contexto, a coordenadora de Sustentabilidade da Abiquim, Carolina Sartori, apresentou a agenda climática da entidade e ressaltou que a indústria química ocupa posição estratégica tanto para o desenvolvimento econômico quanto para a transição para uma economia de baixo carbono. Além de representar o sexto maior mercado químico do mundo e um dos principais empregadores da indústria nacional, o setor reúne características que colocam o Brasil em posição diferenciada na corrida global pela descarbonização, como a elevada participação de fontes renováveis na matriz energética e o crescente uso de matérias-primas renováveis.


Durante sua apresentação, Sartori também destacou os resultados do estudo desenvolvido pela Abiquim que analisa as trajetórias para a neutralidade climática da indústria química brasileira até meados do século. O levantamento demonstra que não existe um único caminho para alcançar neutralidade climática, mas diferentes rotas tecnológicas capazes de combinar biomassa sustentável, captura e armazenamento de carbono, reciclagem e outras soluções inovadoras. Além dos aspectos tecnológicos, o estudo também avaliou investimentos, custos operacionais e necessidades de políticas públicas, consolidando-se como uma das principais referências para a discussão da descarbonização do setor químico brasileiro


Carolina Sartori: “Descarbonização e competitividade caminham juntas para a indústria química.”
Crédito: Abiquim/Divulgação


O estudo mostra que todas as trajetórias rumo à neutralidade climática exigirão investimentos expressivos ao longo das próximas décadas, estimados entre US$ 69 bilhões e US$ 93 bilhões, dependendo da rota tecnológica adotada As trajetórias que aproveitam vantagens brasileiras, como o acesso à biomassa sustentável e o uso de tecnologias já consolidadas no País, apresentam menores custos de investimento e operação. Em contrapartida, cenários mais dependentes de tecnologias ainda pouco disponíveis ou de insumos importados elevam custos, aumentam a dependência externa e reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas ao financiamento climático, à inovação, à infraestrutura e à segurança regulatória para que essa transição ocorra de forma competitiva.


Carolina Sartori também apresentou a atuação da Abiquim na construção dessa agenda, destacando as contribuições da entidade para a Taxonomia Sustentável Brasileira, o Plano Clima, a Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial, o Programa Selo Verde Brasil e a regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Segundo ela, a Associação atua para que essas políticas sejam construídas com base em evidências técnicas produzidas pela própria indústria química, conciliando integridade ambiental, viabilidade operacional e competitividade.


Com base na experiência acumulada pelas empresas associadas e nos dados produzidos pelo Programa Atuação Responsável®, a Abiquim também apresentou contribuições para a regulamentação do SBCE. Entre elas estão o reconhecimento dos esforços relacionados às reduções emissões do Escopo1 e 2, a ampliação do acesso ao financiamento climático, o desenvolvimento de um sistema de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV) alinhado às melhores práticas internacionais e adaptado à realidade brasileira, além da discussão de instrumentos capazes de preservar a competitividade da indústria nacional, como mecanismos de ajuste de carbono na fronteira.


Políticas públicas avançam para a implementação

 

Juliana Falcão: “Plano Clima e financiamento climático ampliam oportunidades para o setor.”
Crédito: Abiquim/Divulgação

 

Nesse contexto, a consultora Juliana Falcão, da Consultoria Base Zero, apresentou um panorama da política climática brasileira, esclarecendo os compromissos assumidos pelo País no âmbito do Acordo de Paris e demonstrando como instrumentos como o Plano Clima, a Taxonomia Sustentável, o Plano de Transformação Ecológica e o mercado regulado de carbono se articulam para apoiar a descarbonização da economia. A especialista ressaltou a importância de compreender essas iniciativas de forma integrada, permitindo que as empresas identifiquem oportunidades e se preparem para as mudanças regulatórias em curso.


Para mostrar como essa agenda vem sendo estruturada, o diretor de Descarbonização do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Arthur Boareto, apresentou a Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial (ENDI), construída a partir de amplo processo de consulta pública e diálogo com o setor produtivo. Estruturada em quatro pilares - pesquisa, desenvolvimento, inovação e capacitação; insumos descarbonizantes; estímulo à demanda por produtos de baixo carbono; e financiamento da transição industrial -, a estratégia reúne 29 ações voltadas ao fortalecimento da competitividade da indústria brasileira e ao cumprimento das metas climáticas do País. Boareto também destacou a participação da Abiquim na construção da estratégia e na formulação de propostas para a descarbonização da indústria química.



Arthur Boareto: “ENDI articula políticas públicas para acelerar a descarbonização industrial.
Crédito: Abiquim/Divulgação


Já no campo regulatório, o subsecretário de Implementação da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, Thiago Barral, apresentou o cronograma de regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Durante sua apresentação, detalhou a estrutura de governança do sistema, as etapas previstas para sua implementação e o funcionamento do Programa Brasileiro de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV), considerado a base do mercado regulado de carbono. Barral explicou que a entrada dos diferentes setores econômicos ocorrerá de forma escalonada, sendo a indústria química prevista para integrar a segunda etapa de implementação do programa.



Thiago Barral: “SBCE avança na regulamentação e terá implementação gradual.”
Crédito: Abiquim/Divulgação


Complementando essa discussão, Juliana Falcão apresentou os principais instrumentos de financiamento climático disponíveis para apoiar a descarbonização da indústria, entre eles o Fundo Clima, a Plataforma BIP, o EcoInvest, a Taxonomia Sustentável Brasileira e mecanismos internacionais de financiamento. A consultora destacou que a combinação entre políticas públicas, instrumentos financeiros e segurança regulatória será decisiva para ampliar a capacidade de investimento da indústria brasileira e acelerar a transição para uma economia de baixo carbono.

 

Ao reunir representantes do governo federal, especialistas e empresas associadas, a Abiquim reforçou o papel destacado por André Passos na abertura do encontro: contribuir para que a indústria química participe ativamente da construção das políticas públicas que irão moldar sua competitividade nas próximas décadas. Além do compromisso de acompanhar a agenda climática, a Associação busca preparar o setor para transformar a transição para uma economia de baixo carbono em oportunidade de desenvolvimento, inovação e crescimento sustentável.